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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Para fora do opróbrio: O caminho de uma nação para o Cristo

O presente texto, que pretende ser simples e breve, foi publicado, primeiramente, em meu facebook pessoal, posteriormente na página oficial da Frente Integralista Brasileira na mesma rede social e agora por aqui... espero que seja uma leitura agradável.

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“Se pretendêssemos explicar por meios puramente humanos o princípio da sociedade e da civilização, além dos laços naturais da família, primeiro germe da associação, mas não da civilização, o acharíamos na poesia religiosa; e nos poetas os primeiros legisladores, os primeiros filósofos, os primeiros hierofantes e civilizadores do gênero humano.”


[MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves. Factos do Espírito Humano. Ed. Livraria D' Auguste Fontaine. Paris, 1858; Pág 8]

Acrescento, à um dos primeiros filósofos nacionais, que fora o grande Visconde do Araguaia, que o princípio da sociedade e da civilização se fez na poesia religiosa porque de Deus emana a Lei que é sempre justa. 

Tudo o que vemos de corrupção das diretrizes da associação e civilização que se proliferou através, primeiro, dos milênios, depois, dos séculos, das décadas, dos anos e agora dia a dia, não é mais do que consequência do desvio desse emanar de Lei justa primordial, logo a poesia deixou de ser religiosa, aquela que em verdade é a palavra viva, a legislação e, depois, os poetas deixaram de ser os legisladores.

Não há mais legislação: há corrupção. 

Não há mais legisladores: há corruptores. 

E qualquer nação, que pretenda deixar este opróbrio e ter a virtude precisa crer, nem que seja como Sócrates em oposição à Filebo: 

“Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os seres animados, o bem consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais do mesmo gênero. De nossa parte, defendemos o princípio de que talvez não seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais valor que o prazer, para quantos forem capazes de participar deles, e que essa participação é o que há de mais vantajoso pode haver para os seres em universal, presentes e futuros.”

[SÓCRATES. In (PLATÃO. Filebo.)] 

E por este raciocínio verdadeiro certamente se aproximará de uma das mais belas conclusões socráticas e advertências aos insensatos: 

“Soubera ele (Sócrates) que Aristodemo não oferecia aos deuses sacrifícios nem preces, que não se socorria da adivinhação e até chufeava dos que observam tais práticas.
— Dize-me, Aristodemo — interpelou-o — haverá homens que admires pelo talento?
— Por certo.
— Nomeia-os.
— Na poesia épica admiro sobretudo Homero, no ditirambo Melanípedes, na tragédia Sófocles, na estatuária Policleto, na pintura Zêuxis.
— Quais são, a teus olhos, mais dignos de admiração, os artistas que fazem imagens sem razão e sem movimento ou os artistas que criam seres inteligentes e animados?
— Por Júpiter! os que criam seres animados, desde que tais seres não sejam obra do acaso, mas de uma inteligência-
— Das obras sem destinação manifesta e daquelas cuja utilidade é incontestável, quais consideras como produto do acaso ou de uma inteligência?
— Justo é perfilhar a uma inteligência as obras que tenham fim de utilidade.
— Não te parece então que aquele que, desde que o mundo é mundo, criou os homens lhes haja dado, para que lhes fossem úteis, cada um dos órgãos por intermédio dos quais experimentam sensações, olhos para ver o que é visível e ouvidos para ouvir os sons? De que nos serviriam os odores se não tivéssemos narículas? Que idéia teríamos do doce, do amargo, de tudo o que agrada ao paladar, se não existisse a língua para os discernir? Ao demais, não achas dever olhar-se como ato de previdência que sendo a vista um órgão frágil, seja munida de pálpebras, que se abrem quando preciso e se fecham durante o sono; que para proteger a vista contra o vento, estas pálpebras sejam providas de um crivo de cílios; que os supercílios formem uma goteira por cima dos olhos, de sorte que o suor que escorra da testa não lhes possa fazer mal; que o ouvido receba todos os sons sem jamais encher-se; que em todos os animais os dentes da frente sejam cortantes e os molares aptos a triturar os alimentos que daqueles recebem; que a boca, destinada a receber o que excita o apetite, esteja localizada perto dos olhos e das narículas, de passo que as dejeções, que nos repugnam, têm seus canais afastados o mais possível dos órgãos dos sentidos? Trepidas em atribuir a uma inteligência ou ao acaso todas essas obras de tão alta previdência? 
— Não, por Júpiter! — respondeu Aristodemo — parece, sem dúvida, tratar-se da obra de algum artífice sábio e amigo dos seres que respiram.
— E o desejo inspirado às criaturas de se reproduzirem, e o desejo inspirado às mães de alimentarem o próprio fruto, e neste fruto o maior amor à vida e o mais profundo temor da morte?
— Evidentemente tudo isso são obras de um ente que decidira existissem animais.
— Crês-te um ser dotado de certa inteligência e negas existir algo inteligente fora de ti, quando sabes não teres em teu corpo senão uma parcela da vasta extensão da terra, uma gota da massa das águas, e que tão-somente uma parte ínfima da imensa quantidade dos elementos, entra na organização do teu corpo? Pensas haver açambarcado uma inteligência que conseguintemente inexistiria em qualquer outra parte, e que esses seres infinitos em relação a ti em número e grandeza sejam mantidos em ordem por força ininteligente?
— Sim, por Júpiter! pois não lhes vejo os autores como vejo os artífices das nossas obras.
— Tampouco vês tua alma, senhora de teu corpo: de sorte que poderias dizer nada fazeres com inteligência, mas tudo fazeres ao acaso.
Aristodemo: — Claro, Sócrates, que não desprezo a divindade. Mas creio-a muito grande para ter necessidade de meu culto.
— Contudo — retorquiu Sócrates — quanto maior for o ente que se digna de tomar-te sob sua tutela tanto mais lhe deves homenagens. 
— Pois olha, se achasse que os deuses se ocupam dos homens, não os negligenciaria.
— Como! Julgá-lo que não, se, antes de mais nada, só ao homem, dentre todos os animais, concederam a faculdade de se manter de pé, postura que lhe permite ver mais longe, contemplar os objetos que lhe ficam acima e melhor guardar-se dos perigos! Na cabeça colocaram-lhe os olhos, os ouvidos, a boca. E enquanto aos outros animais davam pés que só lhes permitem mudar de lugar, ao homem presentearam também com mãos, com o auxílio das quais realizamos a maior parte dos atos que nos tornam mais felizes que os brutos. Todos os animais têm língua: a do homem é a única que, tocando as diversas partes da boca, articula sons e comunica aos outros tudo o que queremos exprimir. Deverei falar dos prazeres do amor, cuja faculdade,.restrita para todos os outros animais a uma estação do ano, para nós se estende ininterruptamente até a velhice? Nem se satisfez a divindade em ocupar-se do corpo do homem, mas, o que é o principal, deu-lhe a mais perfeita alma. Efetivamente, qual o outro animal cuja alma seja capaz de reconhecer a existência dos deuses, autores deste conjunto de corpos imensos e esplêndidos? Que outra espécie além da humana rende culto à divindade? Qual o animal capaz tanto quanto o homem de premunir-se contra a fome, a sede, o frio, o calor, curar as doenças, desenvolver as próprias forças pelo exercício, trabalhar por adquirir a ciência, recordar-se do que viu, ouviu ou aprendeu? Não te parece evidente que os homens vivem como deuses entre os outros animais, superiores pela natureza do corpo como da alma? Com o corpo de um boi e a inteligência de um homem não se estaria em melhor condição que os seres apercebidos de mãos mas desprovidos de inteligência. Tu, que reúnes essas duas vantagens tão preciosas, não crês que os deuses se carpem de ti? Que será preciso então que façam para convencer-te?
— Que me enviem, como dizes que te enviam, avisos sobre que deva ou não fazer.
— Quando falam aos atenienses que os interrogam por meio da adivinhação, julgas que não falam a ti também? Da mesma forma, quando por prodígios manifestam sua vontade aos gregos, a todos os homens, serás tu o único esquecido? Pensas que se não tivessem poder para tanto, os deuses teriam incutido nos homens a crença de poderem distribuir o bem e o mal, e que os homens, por eles enganados há tantos séculos ainda não o teriam percebido? Não vês que as instituições humanas mais antigas e mais sábias — estados e nações — são também as mais religiosas, que as épocas mais lúcidas são também as de maior piedade? Saiba, meu caro, que tua alma aposentada em teu corpo, governa-o como lhe apraz. Mister é acreditar, portanto, tudo dispor a seu grado a inteligência que habita o universo. Quê! tua vista pode abranger um raio de vários estádios e os olhos da divindade não poderiam tudo abarcar ao mesmo tempo! Teu espírito pode ocupar-se simultaneamente do que se passa aqui, no Egito, na Sicília, e a inteligência da deidade não seria capaz de em tudo pensar a um só tempo! Certo, se obsequiando os homens, « aprendes a conhecer os que também são suscetíveis de obsequiar-te; se prestando-lhes serviços, vês os que por seu turno estão dispostos a retribuir-te; se deliberando com eles, distingues os que são dotados de prudência: assim também, rendendo homenagem aos deuses, verás até que ponto estão dispostos a esclarecer os homens sobre o que nos ocultaram, conhecerás a natureza e a grandeza dessa divindade que tudo pode ver e ouvir contemporaneamente, estar presente em toda parte e de tudo ocupar-se ao mesmo tempo.”

[SÓCRATES. In (XENOFONTE. Memorabilia Cap IV.)]

E então, a Nação, vívida em espírito, conhecerá o Caminho, a Verdade e a Vida para a divindade que “tudo pode ver e ouvir contemporaneamente, estar presente em toda parte e de tudo ocupar-se ao mesmo tempo” saberá que ela é única e certamente dirá: CHRIST D'ABORD¹!!!

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¹ Em seu livro "Primeiro Cristo!" Plínio Salgado opõe Christ d'abord (Cristo primeiro) ao consagrado lema de Charles Maurras "politique d'abord" (Política primeiro).

Domingos José Gonçalves Magalhães, o Visconde do Araguaia. (Mais informações sobre a imagem favor me contactar).
POR CRISTO E PELA PÁTRIA: ANAUÊ!

Lucas Gustavo Boaventura Martins, 20 de Novembro de 2016.

sábado, 24 de setembro de 2016

A Beleza

a beleza
A beleza, hoje, dias sombrios, é fácil e difícil de encontrar.

Paradoxo belo, para quem a conhece, mas não é tão fácil assim a conhecer, ela se esconde nas belas paisagens bucólicas que o apressado não vê, se esconde no leve vento que balança as folhas, tocando a face, como Deus acariciando sua criação, quebrando a calmaria, que o sem tato não sente, se esconde nas diversas formas, brancas ou diluviais, das nuvens que o sem imaginação não cria e nas formas tomadas pelas matérias, saídas de nossa mente, em nossas mãos.

Mas é impossível não ter pressa num mundo onde a máquina tudo manda, tudo faz, e tudo a seu tempo e nós, criadores das máquinas, que temos de nos adaptar as suas imperiosas marcações milesimais, aos seus copiosos e miméticos mandamentos, escravizando a massa ao trabalho fortuito, retirando, assim, o seu tato, deslocando-os para fora de suas naturais aptidões, eliminando, assim, a sua criatividade.  

Quem manda nas máquinas são os patrões, mas quem manda nos patrões acima de tudo é o sistema, um sistema onde se adora ao dinheiro, se adora a Mamom. O culto mamônico instaurou-se ao redor de todos nós, e em quase todos nós, as duas faces de satanás agem, uma, dentro do coração petrificado do burguês, petrificado pela sua imoralidade, pelos seus epicurismos, indiferenças e seu cosmopolitismo, a outra dentro do coração do proletário, do camponês, petrificado pela ignorância que os sistemas vigentes fizeram regra, petrificado por tentar imitar o burguês, aprendendo com este a colocar os prazeres materiais e biológicos acima das virtudes absolutas da beleza e da honestidade, acima dos prazeres espirituais.

Quem mantém este sistema é o materialismo avassalador dos homens materialistas de ação e da massa materialista estática e mórbida, massa que decide todos os rumos dos povos e da humanidade, infelizmente sempre no caminho feito pelos materialistas de ação, que as guiam por meio de seus instintos mais vis, maléficos e viciosos, vermes que corroem o cérebro da massa, lobotomizando-a e a mostrando a direção que os Donos do Mundo, por analogia à Bíblia, Satanás quer.

A beleza, nisso tudo, tornou-se retrógrada, ultrapassada, incapaz frente a velocidade produtiva da feiura.

―LUCAS GUSTAVO BOAVENTURA MARTINS

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Foto do Arquivo Pessoal - Represa de Santa Maria, Aracruz-ES
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Por Cristo e pela Pátria: Anauê!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Algo sobre o Belo - Alberto Buela

Algo sobre o Belo

Por Alberto Buela

           Três diletos amigos meus, pensadores e dos bons, o espanhol Javier Ruiz Portella, diretor do periódico El Manifesto; o português Duarte Branquihno, diretor de O Diabo e o francês Alain de Benoist, diretor das revistas Krisis y Élements, se reuniram em Paris na realização de um colóquio para falar "contra a feiura e pela beleza."

            Que extraordinário! Que fora do comum! Coisas como esta preenchem de entusiasmo e alimentam o espírito. Nos afastam do derrotismo natural a que nos leva a nossa sociedade de consumo e nos insuflam forças para seguir nesta luta desigual contra a vulgaridade, a chatice, o profano, a estupidez, a feiura, o mau gosto e as mil agressões que sofremos diariamente tanto da mídia como dos cartazes e das janelas da rua.

            Há vinte e cinco século e atribuído a Platão, se vem repetindo na tradição filosófica do Ocidente que a beleza é o esplendor da verdade (splendor veri). Esta frase contém dois termos: esplendor e verdade. O esplendor não é um resplendor difuso, mas um fulgor de luz que emana da coisa bela e a verdade é o que brilha. A obra de arte é então aquela através da qual brilha a verdade. E para os gregos a verdade αλετεια (aleteia) que significa desocultação, revela, tirar o véu que cobre a essência das coisas. E é este des-ocultar que produz a obra de arte que faz Heidegger afirmar: "Na obra de arte foi posto em operação a verdade do ente. A obra de arte abre a seu modo o ser do ente".

            Porém, como é, como se produz este enraizamento da obra de arte com a verdade? Esta é a questão do milhão, e aqui, cada professor com seu livreto.

            Na nossa opinião, a obra de arte expressa a verdade de forma simbólica, isto quer dizer que remete a algo que está além do que aparenta. A obra de arte re-presenta algo, apresenta de outra maneira as coisas como se dão ao olhar vulgar, a transcende. Inclusive a arte não-figurativa, não-representativa, apesar da intenção de seus representantes também representa. Ao menos tenta ser a representação da não representação. E dado que a arte como todo símbolo é um signo arbitrário, (cada pintor pinta o mesmo porém distinto) que se distingue do sinal que é um signo natural, ex. a nuvem é sinal de chuva. E como a captação do símbolo só é possível por analogia, de igual modo, o acesso à obra de arte se realiza pelo mesmo meio, de modo indireto.

            Devido a seu caráter simbólico é que a obra de arte vincula o singular com o universal, o contigente com o necessário. É na conhecida definição de Hegel "expressão sensível da ideia", apresenta no sensível o suprassensível.

"Então, na obra de arte não se trata da reprodução dos entes singulares existentes, mas ao contrário da representação da essência geral das coisas" nos diz, por sua vez, Heidegger.

            E na tarefa de compreender a obra de arte como símbolo, em sua decodificação intervém a hermenêutica, a ciência da interpretação, onde se destaca o agudo filósofo mexicano Mauricio Beuchot: "Se a hermenêutica tem tido o trabalho de aproximar e quase combinar a compreensão e a explicação aplicada às obras de arte,  faz com que elas nos deem uma compreensão (um sentido), mas, também, uma explicação (uma referência). Põe-se diante de nosso intelecto algo que dá um sentido e uma referência sobre certos aspectos humanos que são universais".

            Assim quando ante a obra de arte, belo pelos sentidos, sobretudo a visão e a audição, poderemos gozarmos compreendê-la sem perder a referência, chegamos à representação plena, ao unir em um só ato compreensão e explicação.

            Existe além do acesso intelectual à obra de arte, uma aproximação emocional que se localiza no observador. O esplendor, se aprecia sobretudo nas grandes obras de arte, que se traduzem em comoção do observador. A obra de arte o leva para fora da trivialidade, da cotidianidade, nos transporta a outro mundo, mais transcendente ou mais profundo. Isto Aristóteles chamou καθαρσις, catharsis. Claro que ele o deu uma conotação moral como expurgo das paixões. Porém, o fato é que uma obra de arte se valora por sua maior ou menor comoção. Pensemos nos efeitos da Antígona de Sófocles que morre em desafio ao poder político por ser fiel à lei divina e à piedade fraterna. Ou como nos comove uma sinfonia, um quadro, uma escultura, um filme, uma dança bem dançada e as centenas de expressões estéticas quando estão acabadas, quando são perfeitas.

            A própria ideia de mundo se define primeiramente pelo belo, pois tanto mundus como cosmos significam isso. Todavia, hoje falamos de cosmética ou arte de fazer belas as mulheres ou do imundo como o sujo e o feio.

            E quando o mundo nos mostra sua beleza? O faz no grande belo, que caracterizamos como o sublime: um pôr-do-sol, um pico nevado, uma cachoeira, o mar "como um vasto cristal prateado", o pampa, "essa vertigem horizontal", da qual nos falava Drieu la Rochelle.

            Porém Platão não só se limitava à vinculação transcendental, isto é, além de toda categoria entre a beleza e a verdade, mas que também incorporava o bom com sua ideia de kalokagathia, isto é, o somatório de kalós (o belo) e agathós (o bom). E assim o expressa n'O Filebo: "a potência do bem refugia-se na natureza do belo".

            Tudo isso nos leva aos abismos mais insondáveis da metafísica, pois caímos no tratamento dos transcendentais do ente ou os horizontes do ser de que nos fala hoje, Engen Fink, grande colaborador de Heidegger. Assim aos quatro horizontes clássicos do ser que dominam a filosofia antiga, medieval, moderna e, em alguns casos contemporânea, on, ens, ente - en, unum, um - agathón-bonum-bom e alethés-verum-verdadeiro, devemos agregar em nossos tempos o kalós-pulchrum-belo.

            A ideia é que chegado o ser à plenitude de sua realização, tanto nos entes como nas ações, todos eles se convertem entre si.


Bom, porém, isto já é tema para um tratado. 

Alberto Buela


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Traduzido por: Breno Costa
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Por Cristo, pela Pátria herdada de nossos maiores, pela Família: Anauê!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Fascismo Revisitado: Irredentismo, Autocracia e Revolução

O Fascismo Revisitado: Irredentismo, Autocracia e Revolução

Breve Ensaio sobre o Fascismo sob uma ótica menos espantada.


O presente ensaio não pretende ou espera defender o Fascismo, senão revisitá-lo sob uma análise menos preconceituosa e certamente mais positiva, tendo o caráter breve por não querer tratar, aqui, de tudo e nem se aprofundar bem em quaisquer dos assuntos, apenas desbravando novas visões sobre a palavra de ordem "Fascismo", em especial o italiano, que a tantos grandes arrebatou no século passado, com esperança e atitude.




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Por Cristo e pela Nação: Anauê!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Terra Irredenta - Poema

TERRA IRREDENTA
Irredentista sou,
nesse Brasil sim,
da Guiana 'non',
da Cisplatina 'non'.

Irredentista sou,
do passado sim!
Do passado brasileiro,
recôndito em lamaceiro.

Irredentista sou,
da glória sim!
da glória brasileira,
esquecida com uma bandeira.

Irredentista sou,
desta terra irredenta,
sob a bandeira republicana,
que esconde o seu passado,
põe no óstraco a sua glória.

Irredentista sou,
desta terra irredenta,
que da lama,
remirá o seu passado.

Irredentista sou,
desta terra irredenta,
que imperiosa,
resgatará a sua glória.

Irredentista sou,
deste Brasil sim.

— LUCAS GUSTAVO BOAVENTURA MARTINS, 12/09/2016



quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mensagem da Acção Realista Portuguesa a Sua Majestade El-Rei

Mensagem da Acção Realista Portuguesa a S.M. El-Rei




Esta Mensagem que a Ação Realista Portuguesa enviou a El-Rei, num momento indeciso da Causa Monárquica, é um documento de coragem honesta e desassombrada. Ficará na história política do nosso tempo como a afirmação energética duma idéia nacional que tendo como único objetivo o interesse da pátria, não hesita, não quebra, não emudece, mas segue para a frente, dominadora e irresistível.
Houve pessoas graves que censuraram o nosso ato, como se nós tivéssemos cometido uma irreverência. Julgaram-nos rebeldes, insolentes, insensatos. O interesse que essa Mensagem produziu atemorizou-as... E de ombros encolhidos, num desânimo taciturno, essas pessoas pacatas foram lamentar-se para o cavaco ameno da esquina e do serão familiar...
Que queríamos nós? Que queremos nós?
Que as palavras do Rei sejam respeitadas e as suas ordens obedecidas. Que a autoridade do Rei seja restaurada em toda a sua plenitude, de acordo com a Nação livre, desintoxicada dos venenos liberais e parlamentares.
Que a Causa Monárquica, como causa nacional, siga a expressão política da revolta e da vitalidade desperta do país.
Esta Mensagem ficará a marcar uma época. É um documento que interessa o país porque revela a luta de idéias para restabelecer o verdadeiro conceito de Soberania e de Nação. Sinal desse combate de doutrinas, no seu acento firme e energético podemos auscultar a marcha vitoriosa duma idéia que já hoje se transformou numa força animadora, numa energia profunda de revolta.
Publicamo-la num momento decisivo para a Nação. As razões da nossa existência coletiva estão agora lucidamente projetadas.
A ditadura atual parece, antes de tudo, um exame de consciência. Mas que esse exame seja acompanhado pela serena análise da Inteligência, que esclarece e ilumina.
A necessidade da Monarquia impõe se ao interesse nacional. Mas os próprios fatos políticos encarregaram-se de colocar o problema monárquico no seu verdadeiro prisma. Que Monarquia poderá resgatar Portugal? A democrática, com caciques e parlamento, com partidos e a anarquia política e econômica? Essa está condenada e acompanha ao seu túmulo a república parlamentar.
A Monarquia, que o país espera, é aquela que possa unificar e disciplinar e construir novos quadros em que se integrem, numa vitalidade fecunda, todas as forças nacionais, que o parlamentarismo inutiliza e desconhece.
Eis por que esta Mensagem tem neste momento uma eloquente atualidade.


SENHOR!

Absoluta e inalteravelmente fiel a Vossa Majestade, a Quem tem servido e a Quem está servindo, neste momento, com a maior lealdade, a Ação Realista Portuguesa, tendo estudado atentamente todas as circunstâncias que cercam e caracterizam a situação da Causa que Vossa Majestade representa, entendeu do seu dever falar a Vossa Majestade, de modo que todos ouçam, porque o problema interessa profundamente e superiormente à Nação inteira.
Estão, neste momento, em jogo, o prestígio e a autoridade de Vossa Majestade.
A Ação Realista Portuguesa que, porque é realista, tem o culto do princípio da Realeza, vem colocar-se toda unida e inspirada pelos mesmos sentimentos de devotamento e sacrifício ao lado do Rei, para que este, na hora torva de lutas inconfessáveis que atravessamos, veja que não está sozinho, e pelo que nos diz respeito, é mesmo Rei livre e magnificamente integrado no Interesse nacional.
Nós batemo-nos por princípios — pelo princípio monárquico na sua máxima pureza e na sua plena integralidade. E porque Vossa Majestade, tão irrepreensivelmente representa e consubstancia esse princípio, nós batemo-nos pelo Rei, e aqui estamos a afirmar-Lhe a nossa incondicional solidariedade, estranhos a quaisquer considerações que não sejam as sagradas e legítimas considerações do Prestígio da Realeza, da Autoridade do Rei e do Interesse da Pátria.
As coisas são o que são, e não o que nós queremos que elas sejam. As realidades valem mais do que as palavras e do que as afirmações.
Ora a realidade, a triste realidade, é que a chamada Causa monárquica era apenas uma tabuleta, um rótulo a abrigar uma mistura inconvertível de monárquicos e de não-monárquicos. Sob a veste ilusória da Unidade da Causa, viviam os sentimentos mais opostos, as opiniões mais irredutíveis. Caminhava-se às cegas, numa noite profunda, para um futuro de trevas. Caminhava-se para uma restauração, que seria apenas um golpe de audácia a abrir um espaço totalmente vazio, a iniciar uma era cheia de dúvidas interrogações e mistérios. Ia se arrastar a Nação para uma aventura envolvida em bruma, da qual ninguém sabia o que sairia, a não ser esta palavra vaga que nada significa: a Restauração. Espalhava-se por toda a parte a teoria insensata de se caçar primeiro o urso — como se a Restauração da Monarquia fosse um incidente desportivo.
Caçar primeiro o urso... E depois? Depois cairíamos uns sobre os outros, a procura cada um de nós dos nossos destinos, tratando de descobrir o melhor meio de salvar a Pátria. Devia ser bonito e edificante o espetáculo! Que se diria do General em chefe que desencadeasse a batalha, antes de ter elaborado o plano das operações? Que se diria do cirurgião que abrisse o corpo doente, antes de saber o que havia de fazer? Caçar primeiro o urso, isto é, destituir o regime republicano, antes de se saber o em que consistiria a Monarquia proclamada, era atirar o país para um abismo sem fundo.
Essa situação, conveniente aos que são monárquicos por birra ou por incompatibilidade com os republicanos, era irremediavelmente nefasta à Nação e a Vossa Majestade. Nós não somos monárquicos por despeito, nem por incompatibilidade com os republicanos. Nós somos monárquicos, porque o interesse nacional impõe a Realeza, porque esta serve, como nenhuma outra forma de governo o interesse da Nação. Nós somos monárquicos, porque, enquanto a República é o regime dos partidos, a Monarquia é o regime da Nação. Por isso nós nunca vimos com prazer essa situação da chamada Causa monárquica que vivia consagrando oficialmente o princípio perigoso da ausência legítima de idéias, quanto ao futuro da Monarquia.
Vossa Majestade, na compreensão magnífica das suas altíssimas funções, na consciência plena das suas responsabilidades perante a história, no propósito evidente de afirmar a sua vontade e na decisão admirável de nos conduzir, reconheceu o perigo da situação, viu o cataclismo para que se caminhava, a aventura misteriosa que se nos abria diante dos pés, e falou as palavras audazes e fortes, não como Rei Constitucional, simples chancela de leis e decretos, simples figurante inerte duma comparsaria inútil— mas como Rei livre, cônscio do seu dever, senhor de suas ações, e Chefe, não de um Estado inorgânico, mas de uma Nação hierarquizada.
Falou, e todos nós O ouvimos.
No campo republicano, foi o clamor estrepitante de cólera. No campo monárquico, houve imediatamente, a par de aplauso febril e entusiasta de uns, a reserva, a frieza, a dúvida, o espanto, o mau humor de outros.
Todos aqueles que anseiam por uma Monarquia integralmente católica, integralmente monárquica, e integralmente nacionalista, aplaudiram calorosamente as palavras de Vossa Majestade. Todo esses aclamaram o Rei, porque sentiram que a mão de Vossa Majestade os conduzia à vitória. Mas aqueles que, envenenados pelo liberalismo corruptor e desorganizador, sonham ainda a Monarquia da Igreja serventuária do Estado, e elemento de galopinagem eleitoral, a Monarquia do Rei servo dos partidos e das facções e das conjuras dos corredores parlamentares, alvo preciso das objurgatórias insolentes dos tribunos do Parlamento, a Monarquia inspirada ocultamente pelo Maçonismo internacionalista — esses começaram logo por exigir que as palavras de Vossa Majestade não viessem todas a público, e que o Pensamento de Vossa Majestade fosse amputado ou disfarçado.
Porque o exigiram, Senhor!
E exigiram-no, ameaçando! Exigiram-no, impondo a sua influência de caciques ou a sua bolsa de argentários! Exigiram-no faltando ao respeito ao Rei, censurando o Pensamento do Rei, permitindo-se a louca suposição de que interpretam melhor o interesse nacional, do que Vossa Majestade!
O Lugar-Tenente de Vossa Majestade, que tão admiravelmente cumpriu nesta conjuntura, sem traís, o Pensamento do seu Rei, sem desobedecer às instruções que Vossa Majestade lhe dava, fez quanto possível por acalmar as impertinências revoltantes dos que assim procediam, e suprimiu da Mensagem de Vossa Majestade duas ou três expressões mais características, que os partidários do Liberalismo consideravam ofensivas da sua sensibilidade.
Perante esse fato, a Ação Realista Portuguesa protestou junto do Lugar-Tenente de Vossa Majestade, sendo informada, nesse momento, dos seus propósitos de publicar um artigo interpretativo do Pensamento Régio, o que efetivamente fez, e no qual afirmava às gerações novas de Portugal que a Monarquia que El-Rei preconizava, era a Monarquia dos seus sonhos.
O órgão oficioso da Causa Monárquica manteve o mais absoluto silêncio, quer em relação à Mensagem de Vossa Majestade, quer em relação ao artigo do Lugar-Tenente. De jornais republicanos, caíam sobre Vossa Majestade críticas, censuras e calúnias. E o órgão oficioso da Causa monárquica não tinha uma palavra em defesa de El-Rei, nem uma letra, nem uma vírgula! Jornais monárquicos deturpavam claramente o Pensamento de Vossa Majestade. E o órgão oficioso da Causa — mudo e quedo.
Diante desse espetáculo degradante, a Ação Realista Portuguesa declarou ao Lugar-Tenente de Vossa Majestade, que ou a situação se modificava ou ela abandonava os seus lugares no Conselho Político. O Lugar-Tenente de Vossa Majestade abriu então as colunas do Correio da Manhã á colaboração da Ação Realista, para a defesa e comentário da Mensagem de Vossa Majestade confirmando o verdadeiro pensamento de El-Rei. Ante as declarações e instruções peremptórias do Lugar-Tenente, convocou-se a reunião extraordinária do Conselho Político, para que ele tomasse conhecimento daquilo a que se chamava a «nova orientação da Causa monárquica», encarrega-se mesmo o leader da Câmara dos Deputados de participar aos seus parlamentares essa «nova orientação.»
Entretanto a Ação Realista Portuguesa publicava no Correio da Manhã, e sob a sanção do Lugar-Tenente de Vossa Majestade, três artigs defendendo El-Rei, e exaltando a sua Mensagem. Esses três artigos eram uma espécie de prefácio à série projetada, e autorizada por Quem de direito, de comentário minucioso a cada um dos passos fundamentais da Mensagem de 27 de Fevereiro.
O fato de o Correio da Manhã estar publicando artigos em defesa de Vossa Majestade despertou mais ainda os arraiais monárquicos. E surge a reunião extraordinária do Conselho Político, convocada para que este tomasse conhecimento da «nova orientação» da Causa Monárquica.
Porque cumpre, Senhor, nunca esquecer que o Conselho Político foi convocado extraordinariamente para tomar conhecimento daquilo a que se chamava a «nova orientação» da Causa Monárquica, tal como a definira o Lugar-Tenente de Vossa Majestade, nas instruções que dava para que a Ação Realista defendesse e comentasse a Mensagem régia, e nas expressões que empregara na sessão da Comissão Executiva de que saiu o pedido de convocação do referido Conselho. A Ação Realista constatou, logo de entrada, porém, que se fora convocado para tomar conhecimento da «nova orientação» da Causa Monárquica, o Conselho estava reunido para fins muito diversos dos que tinham provocado o pedido de convocação.
A Ação Realista viu que a maioria do Conselho era constituída, não por monárquicos que sabem o que seja ser monárquico, mas por monárquicos deficientes que entendem que o Rei deve obedecer aos seus caprichos, às suas impertinências, às suas vaidades e aos seus interesses! A Acção Realista ouviu expressões e conceitos que a habilitam a dizer a Vossa Majestade, com dor e franqueza, que com aqueles monárquicos, antes o exílio com as negras saudades da Pátria, para que não lhe aconteça, Senhor, vir encontrar na Pátria amarguíssimas saudades do exílio...
A Ação Realista, inteiramente disciplinada em volta do Rei, fazendo muralha em redor de Vossa Majestade, absolutamente integrada no espírito da Mensagem de 27 de Fevereiro, e fielmente obediente ao Pensamento que essa Mensagem traduz, não quere ser solidária, Senhor, e não o é com a decisão grave do Conselho Superior da Política monárquica de 27 de Março, constante do número 2 da moção lá aprovada, porque essa decisão, além de constituir a reprovação da atitude do Lugar-Tenente efetivo de Vossa Majestade, traduz insofismavelmente o repúdio do Pensamento de El-Rei, e da doutrina da Sua Mensagem.
Sob a redação, aparentemente inofensiva, desse número 2 da moção que proclama a «mais estrita neutralidade do órgão oficioso da Causa em relação à doutrina de cada uma» das correntes doutrinárias nela existentes, está a punhalada covarde, com que o Liberalismo da Causa Monárquica feriu a magnífica Mensagem de El-Rei.
Todo o Prestígio de Vossa Majestade se afunda, sob as palavras dessa resolução. Toda a Autoridade Pessoal e Real de Vossa majestade é desfeiteada pelos propósitos, que animaram essa resolução.
A Ação Realista Portuguesa tentou evitar o escândalo e o ultrage. Chamou a atenção do Conselho para o que significava aquela reolução arbitrária.
Propôs que se adiassem os trabalhos do Conselho para quando estivesse presente o Lugar-Tenente efetivo. Tudo foi vão. O Liberalismo monárquico estava com pressa. Parecia que a sua preocupação consistia em dar satisfação às reclamações dos órgãos republicanos, e aos apetites dos galopins de eleições.
Não hesitou, portanto, em levar a sua avante, contra as observações e o voto da Ação Realista Portuguesa.
Nessa memorável e tristíssima sessão do Conselho Político, de 27 de março, só a Ação Realista Portuguesa votou por El-Rei, só ela foi fiel a El-Rei, só ela se manteve obediente ao Pensamento e à Doutrina de El-Rei. Tudo o mais prestou homenagem a princípios revolucionários que o maçonismo protege e de que a República é a consagração oficial. Nestas condições, a Causa monárquica, Senhor, é apenas Vossa Majestade, com a sua Mensagem de 27 de Fevereiro, tal como foi lida, com o seu Pensamento, tal como foi nela formulado, com as suas Aspirações, tal como estão nela definidas, e a Ação Realista Portuguesa, como todos os monárquicos absolutamente integrados no Pensamento, na Doutrina e nas Aspirações de Vossa Majestade. Entre Vossa Majestade e a Ação Realista Portuguesa, só há a distância que vai do Rei aos súditos e do Chefe aos soldados. De resto somos, pelo Pensamento, pela Doutrina e pelas Aspirações, um só Espírito e uma só Vontade. O que Vossa Majestade pensa, pensamo-lo nós; o que vossa Majestade quere é o que nós queremos!
E, porque assim é, aqui estamos, Senhor, a denunciar a mentira da chamada Causa Monárquica, não em segredo, ao ouvido de Vossa Majestade, como se praticássemos um ato censurável, mas diante do país inteiro, para que o país inteiro julgue os acontecimentos, e faça inteira justiça ao altíssimo critério de Vossa Majestade. Nesta atitude desassombrada de dedicação incondicional a Vossa Majestade, nós prestamos um inegável serviço à Nação, porque desmascaramos aqueles que, à sombra de Vossa Majestade, andavam tecendo uma nova obra de discórdia e desgraça.
Rompemos com esta franqueza e esta clareza, as hostilidades, desligamo-nos, por completo, de qualquer cooperação com o Conselho Político da Causa, prescindimos da colaboração que nos foi oferecida no Correio da Manhã, pois no-la condicionavam, não nos deixando exaltar e comentar a Mensagem de Vossa Majestade, — porque não somos solidários com adversários de El-Rei, com aqueles que querem sobrepôr-se ao Rei, e pretendem que Vossa Majestade seja um frágil manequim nas suas mãos e sirva suas ambições.
Com monárquicos que ainda estão na fase primitiva e caquética do Rei primeiro funcionário público de seu país, do Rei poder moderador, e quejandas sensaborias mofosas, e que ainda por cima se permitem o desejo de tutelar El-Rei, de julgar o Seu Pensamento, e de opôr reservas à Sua Doutrina — não, não e não!
Sós com El-Rei, ficamos muito bem. Se ficássemos com eles, ficávamos muito mal!
Pretendem eles justificar a sua atitude, afirmando que o Rei é Rei de todos os monárquicos, e não pode e não deve, portanto, ter idéias e doutrinas, pois que as doutrinas e idéias dos monárquicos de que é Rei, não são uniformes. Argumento infantil, para não lhe chamarmos pior, e que revela bem os estragos que, na inteligência, fez o cancro liberalista. Se o argumento fosse de receber, Vossa Majestade nem monárquico devia ou podia ser. Se Vossa Majestade é Rei de todos os portugueses, e se nos portugueses há, pelo menos, monárquicos e republicanos, Vossa Majestade, não pode ser monárquico, porque é colocar-Se contra os republicanos. Mas, se Vossa Majestade pode ser Monárquico, sem que isso o iniba de ser Rei de todos os portugueses, porque não há de Vossa Majestade poder ser o Rei, que a sua Mensagem revela, sem que isso o impeça de ser Rei de todos os monárquicos?
Ah! Senhor! Temos a impressão de que essa Monarquia Liberalista, que abriu os túmulos, que encerram os cadáveres de El-Rei D. Carlos e do Príncipe Real, e levou Vossa Majestade para o exílio, não aprendeu nada com estes quinze anos de calvário republicano. É ainda a mesma, com as suas ameaças, com as suas conjuras, com as suas vaidades tolas e com as suas inépcias vaidosas.
Mais do que nunca, nós sentimos o orgulho forte de nada querermos com ela. E aos homens, que querem restaurá-la sob qualquer disfarce que nos exibam, nós consideramo-los tão adversários de Vossa Majestade como os partidários do regime republicano.
Porque se, até 27 de Fevereiro, a Causa Monárquica, pela ausência duma Doutrina e de um Pensamento, era uma entidade amorfa, gelatinosa, capaz de todas as formas,  desde o dia 27 de Fevereiro passou a ser alto de mais alto, de mais belo, de mais fecundo e de mais altivo: passou a ser uma idéia. Da palavra vã — Monarquia, passou a ser a expressão viva e vigorosa — Monarquia Nova, Católica, Tradicionalista.
Antes de 27 de Fevereiro, a pergunta de todas as bocas — que quere a Monarquia? Só era lícita uma resposta: o Poder. Depois de 27 de Fevereiro, essa pergunta só uma resposta comporta: salvar a Nação!
E Vossa Majestade, que tão profundamente alterou a situação da Causa Monárquica, transformando-a duma coisa apática e antipática num organismo cheio de vida e de futuro, em vez de encontrar à sua volta, numa aclamação unânime, todos os monárquicos, — que vê, Senhor?
Vê nos a nós, rodeando-O e aplaudindo-O e vê os representantes do Liberalismo, os defensores do Constitucionalismo, erguidos contra Vossa Majestade tentando, primeiro, ocultar o seu Pensamento, procurando, depois desvirtuá-lo, e, por fim, chegando ao cúmulo de o condenar.
Não! Senhor! Nós somos contra o Conselho Político — e por Vossa Majestade! Nós somos contra o Liberalismo Monárquico — e por Vossa Majestade! Nós somos contra os influentes eleitorais — e por Vossa Majestade! Nós somos contra os censores do Pensamento de El-Rei e por Vossa Majestade! Nós somos contra tudo que cerceie o livre procedimento de Vossa Majestade e embarace o seu Pensamento, e desvirtue a sua Doutrina e abafe a sua Mensagem de 27 de Fevereiro — porque somos por El-Rei Livre —livre como Rei e livre como Chefe!
Essa Mensagem, Senhor, é a Carta de Alforria do Pensamento Monárquico. Vivia este escravizado a fórmulas, a mentiras, a preconceitos, a superstições e habilidades. A medo se manifestava. Hesitante se afirmava. Mas Vossa Majestade, com a sua Mensagem, quebrou as cadeias, que prendiam, ergueu-o do ergástulo nefando em que ele jazia, trouxe-o para a luz do sol, para o ar vivificador, e para Vida, e para a Luta, e disse-lhe, com a Sua suprema autoridade de Rei: caminha!
E hoje, Senhor, o Pensamento Monárquico, livre, segue o seu caminho, impetuosamente, devastadoramente, como a corrente avassaladora dos grandes rios. Nada o deterá já, Senhor, nada! O Pensamento Monárquico, liberto pelas mãos augustas de Vossa Majestade, segue avante à conquista do futuro. É o Pensamento de Vossa Majestade que o ampara; é a Mensagem de Vossa Majestade que lhe serve de estandarte animador...
E agora?
O Lugar-Tenente de Vossa Majestade o disse: — «é andar para diante. O caminho está traçado.»
Abrindo os braços a todos os que respeitem o Pensamento de Vossa Majestade, e nele se integrem, venham donde vierem — encaremos o futuro. Percamos o amor aos Inúteis e aos Cadáveres. Deixemos ficar os primeiros na contemplação espasmódica da sua própria sombra, arrumemos os segundos à beira da estrada, para que neles não tropecem as gerações que chegam, ansiosos de vida e de vitória. Desembaraçado de uns de outros, Vossa Majestade tem toda a força para realizar a Unidade Integral da Monarquia, proclamando sua Alteza Real o Senhor D. Duarte Nuno, Herdeiro Presuntivo da Coroa, encerrando dess'arte, o ciclo de desarmonia que o século dezenove abriu. Bem sabemos nós quão intimamente e sinceramente Vossa Majestade deseja a concórdia dinástica, e quão incansavelmente se tem dedicado a cimentá-la em  bases indestrutíveis. Realizada a Unidade Dinástica, a Unidade Monárquica é uma realidade insofismável, porque o Pensamento de Vossa Majestade é a síntese perfeita das aspirações nacionalistas de Portugal.
Condenando a Democracia, confirmando a falência do Sistema Parlamentar, baseado no Sufrágio Universal e no voto político, manifestando que só o escrúpulo da sua consciência de católico prende Vossa Majestade à Carta Constitucional, dirigindo-se aos Novos, cujas aspirações Vossa Majestade muito bem conhece, e precisando as bases da Monarquia futura, Vossa Majestade oferece-nos, em substituição da Monarquia falsificada, da Monarquia republicana, da Monarquia de origem estrangeira do regime liberal — a pura Monarquia portuguesa, a Monarquia Nova, Católica, Tradicionalista, a Monarquia dos Municípios e dos Sindicatos, das liberdades corporativas e das franquias locais — quer dizer, a Monarquia orgânica, antiparlamentar, autoritária, do poder Pessoal do Rei e das Cortes Gerais Tradicionais da Nação.
E para essa Monarquia, Senhor, em que Rei reina e governa como, em sete séculos da história de Portugal, reinaram e governaram os Reis de Portugal, para essa Monarquia isenta do Pecado Liberal, fonte da anarquia em que o País hoje se debate, para essa Monarquia que Vossa Majestade preconiza, e que constitui o seu ideal de Rei — para essa Monarquia, Senhor, as gerações novas caminham, certas dos seus passos, e firmes na sua resolução, obedecendo à voz dos Antepassados, e honrando a memória dos que, nestes quinze anos, tem caído na luta em sacrifício generoso.
Há que resgatar Portugal do cativeiro, libertando-o do poder do Demônio, e restituindo-o ao poder de Deus, salvando-o da tirania bruta do Número, e entregando-o à direção responsável das Competências. Ninguém melhor do que Vossa Majestade conhece e interpreta o Interesse Nacional. As suas palavras, as palavras da sua Mensagem de 27 de Fevereiro, são a chave do nosso futuro, e a voz de comando da nossa batalha. Portanto, será Vossa Majestade quem nos conduzirá a essa hora bendita do resgate de Portugal.
A Ação Realista Portuguesa fez-se para servir o Rei e para lutar. Não é um partido que aspira o poder, que a era dos partidos políticos passou. É uma das expressões da grande corrente doutrinária, que empolgou a inteligência moça de Portugal, e a salvou dos erros negativistas e dos preconceitos revolucionários das gerações que as precederam.
Ela fez-se para servir o Rei e para lutar. Temos servido Vossa Majestade, conforme temos podido e temos sabido, sem uma deslealdade, sem um esmorecimento da nossa fé. E temos lutado incansavelmente, mais, as vezes, do que podemos.
É ainda para servir Vossa Majestade que aqui estamos a falar-Lhe sem palavras obscuras, sem pensamentos reservados. E é para lutar que nos declaramos unidos à volta de Vossa Majestade.
Cremos em Deus. Cremos no Rei. Cremos na Pátria. Mas em Deus livre, no Rei livre, na Pátria livre.
Com a ajuda de Deus, venceremos. Porque temos fé em que Deus não queira o sacrifício eterno de Portugal. Venceremos, contra todos os inimigos do Bem Comum, contra todos os adversários do Interesse nacional, porque a volta do Rei, obedecendo ao Rei, servindo o Rei, nós servimos Deus e servimos a Pátria!
Neste dia, Senhor, ao repicar festivo dos sinos, ao esvoaçar leve e branco das pombas, ao cair doce das rosas, ao cantar argentino das vozes inocentes, caem os véus roxos dos altares, enchem-se de vagas de luz as naves dos templos, as mãos erguem-se fervorosas, numa prece, para os Céus, os olhos enchem-se de alegria, de lágrimas abençoadas, e todo o orbe católico brada:
— Aleluia! Aleluia!
Depois do pesadelo da Penitência, da Paixão e do Sacrifício é a Vida que recomeça entra cânticos e flores.
Que nos seja propício este dia, Senhor! Que ele proteja as nossas palavras! que Vossa Majestade, reconhecendo as intenções puríssimas do nosso Ato, não oponha dúvidas ao oferecimento do nosso serviço! Porque, na hora máxima do sacrifício, e da hora sem igual do exercício da Vontade Real, Vossa Majestade só encontrará ao Seu lado aqueles que, como nós, entendem que só conduzem à vitória os Chefes a quem se obedece, e não os Chefes que se discutem.
E agora, Senhor, para glória de Portugal, aqui estamos, lealmente e fielmente às ordens de Vossa Majestade que é o nosso Rei e o nosso Chefe, nós que somos seus soldados obedientes e disciplinados!
Beijamos muito respeitosamente as mãos de Vossa Majestade.


Sábado de Aleluia, 3 de Abril de 1926

PELA AÇÃO REALISTA PORTUGUESA



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Fonte: Revista Acção Realista Portuguesa, Nº 32 — 4 Da 3º Série; ANO III, Outubro de 1926.
Autor não especificado, fala-se em nome do movimento, assina a Acção Realista Portuguesa.
Diretor Interino da Revista: João Ameal.

Digitalização: Lucas Gustavo Boaventura Martins.

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Por Cristo e pela nossa amada terra de Vera Cruz: Anauê! 



segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Cancro - Olavo Bilac

O Cancro

Aos estudantes da Faculdade de Medicina de S. Paulo, 14 de Outubro de 1915.
Agradeço com imenso enternecimento a bondade e o carinho com que recebeis a minha visita.
Nesta nobre casa, neste ambiente de trabalho e afeto, entre os vossos corações amigos, um mundo de saudades revive na minha alma. Apenas saído da adolescência, fui como vós, estudante de medicina. No velho edifício da Faculdade do Rio, naquele recanto da feia rua da Misericórdia, ao lado do mar, entre árvores antigas, abriu-se a Vida do meu espírito inquieto e ávido, de asas tontas, de vôo indeciso. Ali vivi, dos 15 aos 20 anos; desvendou-se, ali, para mim, o maravilhoso e doloroso espetáculo do universo e do homem; na Faculdade e no Hospital, na aula e na enfermaria, — a princípio tímido aprendiz dos segredos das ciências naturais, depois ansioso iniciado na biologia, frequentador dos anfiteatros e dos laboratórios, ajudante de preparador de fisiologia experimental, interno de clínica, — adquiri este exaltado gosto da curiosidade, e este doce e amargo sentimento de tristeza resignada, com que tenho até hoje atravessado a existência. Entre o gabinete de química e a sala do nosocômio, entre a mesa de dissecção e o leito do enfermo, escrevi os meus primeiros versos: a minha poesia nasceu da ânsia de saber e da revelação da dor e da piedade. Que é o sonho, senão uma flor do estudo e da compaixão? que é a arte, senão uma filha da curiosidade e do sofrimento?
Vendo-vos, nesta hora meiga e consoladora da minha vida, a mim mesmo me vejo entre vós, estudante e poeta como vós. Porque sois poetas, todos vós; a poesia, — mocidade e vibração, clarão interior de todos os homens inteligentes e bons, — palpita e chispa no olhar com que me aqueceis e iluminais. A poesia viceja e brilha em toda parte, no recesso do sábio e na oficina do operário, no gabinete do estadista e na abegoaria do lavrador, no santuário do jurista e no consultório do médico; a poesia não é somente o ritmo da beleza, a mestria expressão métrica; é também, e principalmente, a bondade e o ideal, o amor da justiça e da verdade, o culto do pensamento e da misericórdia, o sentimento e a consciência da vida moral.
Falo-vos, como poeta, e como velho e impenitente estudante. Como poetas, e como futuros médicos, meus jovens irmãos, amai o Brasil, e dai assistência a pátria enferma!
Conheceis, ou conhecereis, entre os casos clínicos, que vistes ou vereis, uma das mais terríveis desgraças do organismo humano, a mais cruel, talvez, de todas as misérias físicas. Um leve endurecimento, a princípio, e uma ligeira corrosão na pele ou na mucosa; em seguida, o alargamento e a penetração do núcleo destruidor; e o tumor lançando raízes envenenadoras, polvo hediondo, dilatando e aferrando os seus tentáculos vorazes, mordendo e triturando os tegumentos, roendo e comendo os tecidos; e a marcha fatal e implacável da ruína, desfazendo as carnes em sânie; e o mal sem cura infiltrando-se em todo o corpo; e o vírus letal intoxicando todo o sangue, mirrando e  extinguindo toda a força; e, enfim, a caquexia, o marasmo, a agonia, e a morte. É o cancro.
Ora, este flagelo do organismo físico existe também no organismo social. As sociedades, como os indivíduos, são, ás vezes devastadas por essa mesma doença, de sintomas idênticos, de marcha igualmente funestas. É a mesma voracidade, o mesmo enraizamento, a mesma infecção, a mesma discrasia, o mesmo depauperamento, a mesma destruição. Este carcinoma da estrutura moral é a indiferença; e os seus tentáculos ferozes insinuando-se, verrumando, terebrando, infeccionando, ressumando uma baba viscosa e mortífera, desagregando e devorando a presa, — são a fraqueza da alma, o desanimo, o egoísmo, a autolatria, o amor exagerado do luxo e do dinheiro, a falta de patriotismo, e o aniquilamento do caráter próprio pelo desdém dos interesses sagrados da comunhão.
Alguns sintomas deste morbo ignóbil já se manifestam em várias zonas do grande corpo brasileiro. Se, em dois ou três Estados da União, o trabalho, a instrução e o ideal ainda reagem e vencem, — esses mesmos Estados devem ser os mais interessados no perigo, e devem ser os primeiros defensores da federação em perigo. Sabeis que a manifestação cancerosa nunca terá efeitos desastrosos exclusivamente locais, uma vez que o vírus, veiculado pelo sangue, fatalmente se espalha e irriga e contamina a toda a economia vital...
Lutemos todos! reajamos e trabalhemos todos! Se para o carcinoma físico ainda não se descobriu, apesar do paciente labor da heroica tenacidade dos sábios, um remédio seguro, — para o outro, moral e social, existe e sempre existiu o específico infalível, o antídoto fácil, ao alcance de todos, a um tempo profilático e regenerador, preventivo e curativo: a criança individual, o entusiasmo pessoal, — a coragem cívica, que é a salvaguarda da coletividade, a manutenção e a grandeza da pátria.
Para combater e prevenir a diátese cancerosa física, vai certamente aparecer um salvador amanhã; e esse talvez seja um de vós, quem sabe? — porque é possível que entre vós, estudantes de medicina, já exista, em gérmen, um Jenner, um Pasteur, um Chagas. Mas, para debelar a diátese, que ameaça a nacionalidade brasileira, cada um de vós já é um médico perfeito, um inventor benéfico, um salvador providencial.
Concito-vos, como já concitei os vossos irmãos da Faculdade de Direito, e como concito todas as almas do Brasil, para a campanha do entusiasmo e da fé.
Cultivai, desenvolvei, acendrai o vosso patriotismo! E pregai o patriotismo aqui, e lá fora, — nas bancadas das aulas, nos laboratórios, nas salas do hospital, nas ruas, nos lares em que nascestes e em que vos educastes, nos lares novos que constituireis e em que o vosso afeto frutificará em novos brasileiros!
Futuros médicos para os corpos, sede médicos também para as almas, — para a grande alma do Brasil! O Brasil carece de uma nova terapêutica moral e de uma nova cirurgia audaz...
Deus abençoe a vossa bondade e a vossa energia!


   —Olavo Bilac

Umberto Boccioni, "L'antigrazioso" (1912)

Olavo Bilac